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sábado, 15 de março de 2025

KEMP MISSÕES: Domínio do Humanismo Secular

 Um grande desafio que atualmente contribui para a confusão religiosa no cristianismo ocidental é o humanismo secular. O que significa isso e por que o humanismo é algo negativo em sentido secular (mundano)?

A ameaça iminente ao cristianismo em meados do século 20 não foi percebida como invasão de outros sistemas religiosos, mas como a submissão do Ocidente “cristão” a um materialismo não religioso: o humanismo secular, cujo objetivo era aniquilar completamente a religião.

As raízes do humanismo secular

O que chamamos de humanismo secular começou como humanismo puro. No século 15, entendia-se o humanismo da Renascença como o novo nascimento da humanidade segundo o antigo modelo pagão grego de pensamento racional, bem resumido numa declaração de Protágoras, do século 5 a.C.: “O homem é a medida de todas as coisas”. Sem intenção, a Reforma forneceu ao humanismo uma arma crucial para a sua campanha contra a tradição: o direito do indivíduo cristão de investigar por conta própria, e à luz da Palavra de Deus como autoridade última, a fé e as práticas da Igreja Católica Romana (em si uma boa causa). Esse direito tornou-se para os humanistas um meio de substituir a Palavra de Deus pela razão humana autônoma.

No século 17, pensadores como Hobbes, Descartes e Locke começaram a tornar predominante essa noção humanista secularizada ao exigirem a autonomia intelectual do espírito humano diante de tradições religiosas ou da revelação divina. Embora o matemático francês René Descartes fosse uma pessoa profundamente religiosa, ele tentou comprovar a mera existência apenas com base na razão humana por meio da sua famosa declaração: “Cogito, ergo sum” (“Penso, logo existo”). É comum afirmar-se que Descartes tenha lançado a pedra fundamental do racionalismo continental dos séculos 17 e 18.

O grande respeito do humanismo pela inteligência e a racionalidade levou na cultura ocidental ao pensamento criativo e independente que possibilitou inúmeras realizações científicas e tecnológicas. Esse progresso proporcionou a base para conquistas tão espantosas como o pouso do homem na lua. Por outro lado, aos poucos o pensamento humano independente passou a ser considerado como única norma para toda a verdade, como a origem primeira de todo sentido e todo significado – uma unidade racionalista. Cada vez mais pessoas concluíram que uma dimensão espiritual não passaria de mito supersticioso e primitivo, que deveria ser descartado como ilusão irracional. A religião teria de ceder ao homem moderno.

Assim, o iluminismo, a era da razão, predominou no pensamento ocidental como grande oponente ao cristianismo aproximadamente do século 18 ao 20. Apenas as realizações humanas – não mais a fé em Deus, mas a própria razão – seriam o critério da verdade e nos salvariam. Um forte otimismo e respeito à capacidade humana de criar por si um mundo melhor invadiu e conquistou o Ocidente. A razão substituiria a primitiva superstição religiosa e criaria o futuro e glorioso reino humano sobre a terra.

Aos poucos o pensamento humano independente passou a ser considerado como única norma para toda a verdade, como a origem primeira de todo sentido e todo significado.

Essa visão humana otimista de uma religião humanista é vista com razão em conexão com a Revolução Francesa. Em 1789, os revolucionários parisienses erigiram no meio da catedral de Notre Dame em Paris, o centro do cristianismo católico europeu, um altar dedicado à deusa da razão.


Personalidades líderes intelectuais do humanismo secular

O filósofo e revolucionário Voltaire, do século 18, fez uma declaração assustadora sobre o cristianismo: “Ecrasez l’infâme” – literalmente “esmaguem a infame”. O que Voltaire tinha em mente na ocasião era a superstição, os dogmas, as instituições, a ética e a imagem humana do cristianismo. O lema de Voltaire tornou-se o grito de guerra do iluminismo do século 18, um grito dirigido contra o próprio cristianismo.

O humanismo ateu conquistou a elite intelectual da Europa. O imperador Napoleão perguntou a Pierre-Simon Laplace, um grande cientista francês que participou do desenvolvimento da astronomia matemática e da estatística, qual seria a posição de Deus em seu trabalho.

Consta que a resposta de Laplace teria sido: “Não preciso dessa hipótese”.

Muitos filósofos e importantes observadores da sociedade do século 19 previram a vitória definitiva do secularismo e o completo desaparecimento da religião:

1. Ludwig Feuerbach, um filósofo do século 19, chamou o cristianismo de ilusão e Deus de “uma gigantesca projeção humana” – no fundo, “um homem de grande porte”.

2. Charles Darwin desalojou a fé em Deus como Criador do ambiente científico por meio de uma outra variante do humanismo secular. Ele estabeleceu a teoria de que todos os seres vivos seriam provenientes de um ancestral comum por meio de um processo aleatório e impessoal de seleção natural causada por mudanças casuais. A maioria dos seus seguidores posteriores defendia a opinião de que a vida teria se originado na terra por mero acaso e que o homem seria “resultado de um processo natural sem objetivo, que não tinha a intenção de criá-lo”. Com isso, Darwin praticamente tornou Deus supérfluo e a criação (in cluindo a humanidade) um mecanismo puramente físico e autocriador, mas sem sentido.

3. Karl Marx rejeitou a religião como “ópio para o povo”. Marx enxergava a fé religiosa como sinal de uma sociedade organizada erradamente. Ele achava que a necessidade da fé desapareceria assim que a sociedade estivesse organizada racionalmente. Segundo Marx, “o homem é o ser máximo para o homem”.

4. Friedrich Nietzsche, um pensador alemão do século 19, considerava a vida como um fenômeno exclusivamente deste mundo e rejeitava a ideia de um mundo além. Ele levou a rejeição da verdade divina ao seu ápice lógico, chegando ao ponto de declarar que “Deus está morto”. Este tema ressurgiu na década de 1960 no pensamento ocidental e foi defendido por diversos líderes teológicos. No final do século 19, o ateísmo popular passou a influenciar a nova ciência da psicologia. Siegmund Freud escreveu O futuro de uma ilusão e se autodesignou como “judeu totalmente alheio de Deus”. Teria dito que “quanto mais os frutos do conhecimento se tornam acessíveis ao homem, tanto mais se dissemina o declínio da fé religiosa”. Como psicólogo, ele também argumentou que a religião (inclusive o judaísmo) seria uma “loucura das massas” ou uma “neurose coletiva”, na qual estaria praticamente ancorado o nosso anseio “infantil” por uma figura paterna onipotente protetora (mas também ameaçadora). Portanto, ele considerava a religiosidade como um estado seriamente patológico e grande empecilho para a saúde mental, do qual a sociedade futura certamente seria curada. A ênfase nessa ideia não cessou. Richard Dawkins, um dos novos ateus, definiu em 1976 a fé como “uma espécie de doença mental”, e continua a defender essa opinião.

Para muitos intelectuais do século 20 tornou-se óbvio que a religião acabaria por ceder à “verdade” do humanismo secular. Um exemplo disso é o escritor britânico Evelyn Waugh. Waugh cresceu no ambiente cultural britânico da alta sociedade e frequentou uma preparatory school [escola preparatória] para meninos, “baseada em sólidos princípios e fundamentado conhecimento, firmemente ancorados na fé cristã”. Com a idade de 17 anos, ele registrou o seguinte no seu diário: “Nestas últimas semanas deixei de ser cristão. Reconheci que ao menos nos últimos dois semestres tenho sido de todo ateu, exceto quanto à coragem de admitir isso para mim mesmo”. Waugh lembrou-se de que seus professores abordaram livros de teor corrosivo para a fé, “deixando por nossa conta encontrar nossas próprias soluções, tendo sido estimulados a não sermos ortodoxos”. Ele se lembrava de que a metade dos alunos de sua classe era de “agnósticos ou ateus confessantes”. Tudo isso aconteceu dentro de um sistema escolar supostamente cristão.

A declaração de Waugh é característica para um período de aproximadamente dois séculos, no qual o programa humanista secular teve imenso sucesso. A igreja também foi atingida com toda violência, e começou a reinterpretar a mensagem cristã de modo antissupranaturalista. No século 19, o secularismo fantasiado de cristão, o chamado liberalismo teológico, tornou-se um fator poderoso no cristianismo. Ele influenciou principalmente numerosos seminários, faculdades teológicas e outras instituições formadoras de teólogos, para assumirem o propósito de remanejar a fé cristã de tal modo que refletisse o espírito humanista secular da era moderna.

O liberalismo estava imbuído do desejo de redefinir o cristianismo segundo a percepção do homem moderno.

O liberalismo estava imbuído do desejo de redefinir o cristianismo segundo a percepção do homem moderno. Ele reinterpretou o evangelho como justiça social e enxergava Jesus apenas como exemplo e não como salvador divino-humano. A mensagem do Novo Testamento era muitas vezes descrita como uma versão antiga da teoria marxista, segundo a qual Jesus era um revolucionário similar a Che Guevara, que queria mudar as estruturas de poder sociais e econômicas no seu tempo.

Nos anos mais tardios da década de 1960, quando estudei teologia neotestamentária na Universidade de Harvard, a desmitologização era um tema popular. Tratava-se de transformar a antiga fé cristã em uma psicologia para o século 20. Subtraía-se a historicidade de convicções tradicionais e eventos bíblicos essenciais. Cientistas céticos escreviam livros nos quais negavam os milagres do evangelho, inclusive a ressurreição física de Jesus, arrancando assim o coração do corpo do evangelho cristão e extinguindo a fé de muitos membros das grandes igrejas.

Curiosamente, com o surgimento do movimento “Deus está morto” na década de sessenta, o desaparecimento do cristianismo tradicional tornou-se aceitável mesmo na América “cristã”. Teólogos americanos como Thomas J. J. Altizer, Gabriel Vahanian, Paul Van Buren, David Miller e William Hamilton festejavam no Novo Mundo o triunfo definitivo do assassinato nietzschiano de Deus. O homem racional tornara-se adulto e não precisava mais da “hipótese divina”. Quando meus colegas e eu meditávamos durante o estudo de teologia no fim da década de 1960 sobre essa teologia “cristã” radical, víamos nela o triunfo definitivo do humanismo secular radical.

As previsões sobre o desaparecimento do cristianismo pareciam confirmar-se por meio do seu declínio como força social dominante na sociedade ocidental. Aquilo era novidade, porque em nossa história ocidental mais recente houvera um tempo em que, apesar da predominância do humanismo secular na elite intelectual, quase ninguém questionava publicamente a existência de Deus. Assim, a Suprema Corte de Justiça dos Estados Unidos definiu em 1890 a religião como “as opiniões de uma pessoa sobre seu relacionamento com o seu Criador e as obrigações decorrentes disso de venerar sua natureza e seu caráter, e de obedecer à sua vontade”. Não havia outra definição de Deus além desta, de um Criador pessoal e transcendente. Todavia, principalmente por causa do humanismo secular, isto não é mais o caso no discurso público.

O novo humanismo secular

Assim, o que vem a ser secularismo ou humanismo secular, e no que ele se tornou? Hoje ele é conhecido sob outros nomes. Como disciplina intelectual, é chamado de materialismo filosófico; como movimento social é conhecido como modernismo; uma expressão de certo modo religiosa para isso é ateísmo; no marxismo ele é chamado de teoria política, e para muitas pessoas ele representa um modo de vida irrefletido e padronizado, como se Deus não existisse. Todas essas expressões do secularismo rejeitam o sobrenatural como resíduo de sistemas de crença supersticiosos e primitivos. Sem qualquer referência a Deus, o secularismo tenta descrever racionalmente toda a existência a partir de uma perspectiva terrena e materialista, com o homem no centro dessa existência. Todas essas expressões do materialismo secular podem, portanto, ser consideradas uniformes (se bem que não em sentido espiritual) por tentarem descrever o mundo por meio do mundo, lançando mão da razão humana terrena sem apontar para um Criador externo transcendente. Tornar a razão como última instância é uma forma de adoração.

Apesar da confiante previsão secular sobre o “desaparecimento da religião”, o que ultimamente vem desaparecendo é o humanismo secular.

Essa visão humanista secular continua a marcar as universidades ocidentais. Alguns leitores encontrarão ali as formulações de professores que, em suas salas de aula, revelam uma amarga inimizade contra toda espécie de espiritualidade. O secularismo impregnou todas as áreas da sociedade ocidental e requer para si a posição de único acesso à realidade. O entendimento científico comprometido com o naturalismo seria a única possibilidade de reconhecer algo. Isto, porém, não é a história inteira. No caminho para o século 21 aconteceu algo estranho. Apesar da confiante previsão secular sobre o “desaparecimento da religião”, o que ultimamente vem desaparecendo é o humanismo secular.

  • Peter R. Jones (Ph.D., Princeton Theological Seminary) é o diretor de truthXchange e professor adjunto de Novo Testamento no Westminster Seminary California, nos EUA. Jones cresceu em Liverpool e foi amigo de infância de John Lennon. Autor de muitos livros, é casado com Rebecca, tem sete filhos e vários netos.

terça-feira, 4 de março de 2025

KEMP MISSÕES I Censura e Verdade


A tensão entre verdade e mentira tem crescido nos últimos anos, com o aumento das chamadas fake news. Como devemos lidar com isso, como cristãos?

Nos últimos tempos temos sido cercados por uma discussão sem fim sobre censura e fake news. Há até mesmo o famoso projeto de lei sobre as fake news (PL2630), que tem causado tanto tumulto. Por um lado, alguns anunciam que, uma vez aprovada, essa lei será de fato a reinstituição da censura, limitando a liberdade de expressão dos cidadãos. Outros afirmam que grupos poderosos usam as redes sociais para divulgar notícias falsas ou distorções da verdade para promover suas intenções de manipulação da opinião pública. Eu certamente tenho visto muitas fake news promovidas pelos dois extremos ideológicos. Declarações tiradas de seus contextos, afirmações grosseiramente irreais, acusações tecnicamente distorcidas. Nesse âmbito da política e da ideologia, parece valer tudo.

Como cristão bíblico, meu primeiro dever é analisar o que a Bíblia tem a dizer a respeito disso tudo. Muito embora eu possa ter opiniões que vão além da Bíblia, devo reconhecer quando minhas opiniões são apenas isso, opiniões. No entanto, quando a Bíblia é clara sobre algo, devo submeter minhas opiniões à revelação bíblica. Preparei então algumas observações sobre esse tema. Não creio que são exaustivas, mas oro para que possam contribuir para esse debate entre cristãos, e mesmo além deles.

  1. Deus é a verdade (1João 5.20). Ele não apenas apoia ou promove a verdade. Deus é a própria verdade. Ou seja, não há verdade fora de Deus, pois é ele que define a existência. Assim, a verdade é absolutamente importante nesse debate. Como seguidores de Jesus, é muito importante que atentemos à questão da verdade. Não podemos afirmar que estamos servindo a Deus e, de alguma forma, abandonarmos a verdade.
  2. Toda mentira vem do Diabo (João 8.44). Pode parecer óbvia, ainda mais após a primeira observação. No entanto, é tanto uma implicação direta da observação anterior como um princípio fundamental nesse debate. Mesmo a mentira que nos parece boa ou que promove um ponto de vista que, aos nossos olhos, é santo e puro, ela sempre se origina no próprio Diabo e, portanto, corrompe tudo aquilo que envolve. 
  3. Liberdade de expressão deve ter limites. Muito embora isso possa parecer uma abominação, a Bíblia é clara ao afirmar que não devemos mentir (Efésios 4.25), ou falar obscenidades (Efésios 5.3-4) ou mesmo falar a verdade em situações inadequadas (Efésios 4.29). Dessa forma, a liberdade de expressão não deve ser defendida sem os devidos limites, não pode ser um ídolo. Se defendermos a liberdade de expressão sem limites, teríamos de defender um discurso de pedófilos diante de um grupo de crianças.

Mesmo a mentira que nos parece boa ou que promove um ponto de vista que, aos nossos olhos, é santo e puro, ela sempre se origina no próprio Diabo.

  1. A fé cristã visa a verdadeira liberdade (João 8.32). Somos chamados à liberdade, dentro dos parâmetros da verdade (vide a primeira observação). Isso cria uma tensão com o ponto anterior. Por um lado, devemos afirmar que a liberdade de expressão tem limites, por outro lado, defendemos a liberdade. O padrão de equilíbrio é justamente a verdade. Não é possível que eu exerça a liberdade fora dos parâmetros da própria realidade. Por exemplo, não posso exercer a liberdade de voar como um pássaro, pela simples razão de que não sou um pássaro. Esse simples raciocínio seria uma enorme contribuição na discussão sobre pessoas que se identificam como transgênero.
  2. A Bíblia nos ensina a tolerância quanto a temas secundários (Romanos 14.1-8). Precisamos ser muito seletivos quanto à quais temas vamos combater. Acredito que temos base bíblica para nos posicionarmos quanto a temas como aborto, pedofilia e homossexualidade, só para citar alguns polêmicos. Ao mesmo tempo, temas que costumeiramente têm dividido cristãos deveriam ser tratados com maior tolerância. Isso se aplica a inúmeras questões de estratégia governamental. Temos de tomar cuidado para não elevar ao nível de questões de verdades eternas temas que são secundários, muito embora possamos ter opiniões fortes a respeito.
  3. Por fim, a Bíblia nos exorta a corrigir com mansidão (2Timóteo 2.24-26). Uma marca inquestionável de nosso Senhor Jesus era sua mansidão. O único relato de uma confrontação hostil foi com religiosos que deturpavam o templo, e não com pagãos que tinham padrões de vida imorais. Isso não significa concordar com pecado, mas compreender que nossa postura deve sempre ser na esperança de que Deus conceda o arrependimento.

Como cristão, eu sempre desconfio dos (e oro pelos) governantes. Desconfio no sentido de que não posso identificá-los com o meu Senhor Jesus, mesmo quando eles afirmam defender os mesmos pontos de vista que eu defendo. Desconfio ainda mais quando vejo governantes que mentem, distorcem a realidade e afrontam a fé cristã. Nesses momentos, eu ouço a exortação do Espírito escrita por Paulo em Filipenses 1.27-29:

Uma marca inquestionável de nosso Senhor Jesus era sua mansidão.

“Não importa o que aconteça, exerçam a sua cidadania de maneira digna do evangelho de Cristo, para que assim, quer eu vá e os veja, quer apenas ouça a seu respeito em minha ausência, fique eu sabendo que vocês permanecem firmes num só espírito, lutando unânimes pela fé evangélica, sem de forma alguma deixar-se intimidar por aqueles que se opõem a vocês. Para eles isso é sinal de destruição, mas para vocês, de salvação, e isso da parte de Deus; pois a vocês foi dado o privilégio de não apenas crer em Cristo, mas também de sofrer por ele.”

Sendo assim, olho com muita suspeita esses projetos de lei que propõe a regulação das mídias sociais. Se a sociedade tem sido tão ineficiente contra a pornografia, contra a pedofilia e outras imoralidades, como acreditar que um projeto lei proposto e coordenado por seres humanos que, em geral, não reconhecem a Deus vai promover a verdade?

  • Daniel Lima (D.Min., Fuller Theological Seminary) serviu como pastor em igrejas locais por mais de 25 anos. Também formado em psicologia com mestrado em educação cristã, Daniel foi diretor acadêmico do Seminário Bíblico Palavra da Vida (SBPV) por cinco anos. É autor, preletor e tem exercido um ministério na formação e mentoreamento de pastores. Casado com Ana Paula há mais de 30 anos, tem quatro filhos, dois netos e vive no Rio Grande do Sul desde 1995. Ele estará presente no 26º Congresso Internacional Sobre a Palavra Profética, organizado pela Chamada.

KEMP MISSÕES I Quando Trocamos o Passageiro pelo Eterno

Um dos perigos que corremos é o de trocar o essencial por aquilo que é temporário. Jesus falou disso em suas parábolas. Como aplicar seus ensinamentos às nossas vidas?

A história humana é repleta de casos em que uma pessoa quer os benefícios de uma relação, mas não a relação em si. Há casos históricos e literários de pessoas que se aproveitam de outras, “sugando” os benefícios, mas desprezando a pessoa em si. Essas histórias, reais e fantasiosas, são tão comuns pois refletem algo do coração humano. Elas nos parecem verossímeis, apesar de nos gerar repulsa. Na parábola chamada do filho pródigo (Lucas 15), ambos os filhos, tanto o que tomou sua herança e foi embora, como o que permaneceu, queriam os benefícios da herança, mas não desejavam uma relação com o pai. O filho mais novo caiu em si, o mais velho, até o final da parábola, ainda mantinha uma relação de escravo injustiçado com seu pai.

No capítulo 20 do evangelho segundo Lucas, Jesus conta a parábola dos maus lavradores (Lucas 20.9-19). A história é bem conhecida. Certo proprietário plantou uma vinha e contratou lavradores que cuidariam da vinha e lhe pagariam uma porcentagem dos resultados. Como proprietário, ele tinha todo o direito de receber parte dos resultados. A vinha era sua, era ele quem possuía a terra e fora ele que plantara a vinha. Contratos assim eram comuns e plenamente respeitados naquela época.

No entanto, esses lavradores, ao perceberem que o proprietário se ausentara, decidiram se aproveitar da situação e não lhe dar o que lhe era devido. Assim, conforme o senhor enviava pessoas para receber o que era seu por direito, os lavradores não só se recusavam a pagar, mas agrediam os cobradores e os expulsavam. Por fim, o senhor envia seu próprio filho, crendo que a este os lavradores respeitariam. A história atinge seu clímax quando esses lavradores decidem matar o herdeiro e ficar com a herança para si, cortando todos os vínculos com o proprietário. Jesus termina a parábola alertando sobre o juízo que este proprietário exercerá. No versículo 16 lemos: “[O senhor] virá, matará aqueles lavradores e dará a vinha a outros”.

Os lavradores, ao perceberem que o proprietário se ausentara, decidiram se aproveitar da situação e não lhe dar o que lhe era devido.

A reação dos ouvintes revela que eles entenderam muito bem o significado daquela história. Inclusive no versículo 19 lemos que “perceberam que era contra eles que havia contado aquela parábola”. Há alguns elementos que deixavam isso muito claro. Primeiramente, a imagem da vinha era popularmente associada a Israel. Verifique, por exemplo, a passagem de Isaías 5.1-7 e Ezequiel 18. O crime dos lavradores era evidente para os padrões da época. Eles mereciam realmente a morte, pois haviam rompido o contrato e, ainda pior, matado o herdeiro. Em resumo, a história falava de uma vinha que havia sido confiada a um grupo que, em vez de dar ao senhor o que lhe era devido, decidiu usufruir das bençãos, sem honrar o doador das bençãos.

A reação dos ouvintes foi natural: “Que isso nunca aconteça!”. Havia ficado evidente o alerta de que eles haviam tomado posse das bençãos como povo de Deus, tinham sido protegidos pelo Senhor e recebido sua Palavra para que fossem benção entre as nações, mas, em vez de fazerem isso, tinham se recusado a dar honras ao Senhor de coração e, profeticamente, Jesus afirmava que eles matariam o Filho. Mesmo ouvindo esse contundente alerta, eles se negam a se arrepender. No versículo 19 lemos: “Os mestres da lei e os chefes dos sacerdotes procuravam um meio de prendê-lo imediatamente…”.

Antes de sermos excessivamente duros com os judeus e seus líderes, creio que devemos olhar para nossas próprias vidas. Quantas vezes rogamos e pedimos algo para o Senhor – pode ser um livramento, uma benção, uma cura ou a restauração de um relacionamento. Uma vez recebido o que havíamos pedido, somos breves em agradecer e, pouco tempo depois, nos encontramos distantes e frios quanto à nossa relação com o Senhor. Creio que está em nosso coração a tendência de nos desviarmos do que é essencial, eterno e importante, para o trivial e passageiro. Lembro-me de ter lido as palavras de um psiquiatra judeu, sobrevivente do Holocausto, Victor Frankl, que afirmou: “Quando a pessoa não consegue encontrar um profundo senso de significado, ela se distrai com os prazeres”.

Uma vez recebido o que havíamos pedido, somos breves em agradecer e, pouco tempo depois, nos encontramos distantes e frios quanto à nossa relação com o Senhor.

Diante desse quadro, que percebo também em minha vida, me lembro das palavras de Paulo em Filipenses 3.7-9:

“Contudo, o que para mim era lucro passei a considerar como perda, por causa de Cristo. Mais do que isso, considero tudo como perda, comparado com a suprema grandeza do conhecimento de Cristo Jesus, o meu Senhor, por quem perdi todas as coisas. Eu as considero como esterco para poder ganhar Cristo e ser encontrado nele, não tendo a minha própria justiça que procede da lei, mas a que vem por meio da fé em Cristo, a justiça que procede de Deus e se baseia na fé.”

Oro por mim, para que meu coração, que às vezes é volúvel, se apegue mais e mais ao que é importante e eterno. Que eu considere tudo que não seja Cristo como perda, e todas suas dádivas como expressões do seu amor. Não quero que os prazeres que vêm das dádivas de Deus me afastem do seu amor eterno.

  • Daniel Lima (D.Min., Fuller Theological Seminary) serviu como pastor em igrejas locais por mais de 25 anos. Também formado em psicologia com mestrado em educação cristã, Daniel foi diretor acadêmico do Seminário Bíblico Palavra da Vida (SBPV) por cinco anos. É autor, preletor e tem exercido um ministério na formação e mentoreamento de pastores. Casado com Ana Paula há mais de 30 anos, tem quatro filhos, dois netos e vive no Rio Grande do Sul desde 1995. Ele estará presente no 26º Congresso Internacional Sobre a Palavra Profética, organizado pela Chamada.

segunda-feira, 3 de março de 2025

Qual é o Propósito da Salvação e o Imperativo Bíblico do Amor?

 


Para o cristão, uma questão central é: qual é o propósito da salvação, e para que ela nos prepara?

Muitas pessoas afirmam que a salvação existe apenas para ter seus pecados perdoados e ir para o céu. Porém, a salvação é muito mais que isso. O perdão dos pecados é central para a salvação, mas ele é mais um eixo do que o único alvo.

Um aspecto da salvação é a restauração de uma criação caída. A salvação foi projetada para nos levar de volta ao que Deus nos criou para ser quando nos fez segundo a sua imagem. Em outras palavras, a Grande Comissão existe para nos reconectar com o mandato da criação – o porquê original de termos sido criados. A queda da humanidade e nosso pecado inerente nos separaram da plenitude para a qual fomos criados. A salvação nos reconecta a essa plenitude e ao Deus que nos criou.

A salvação não se trata, portanto, de ganhar um lugar no céu, mas recuperar um relacionamento com uma pessoa e aprender a viver da maneira que a agrada. Assim, consideraremos primeiro o mandato da criação, e então o propósito da salvação. Por fim, consideraremos nossa resposta à salvação pela graça através da fé em Cristo e aonde essa salvação deve nos levar, tanto na vida quando na esfera pública.

O mandato da criação, o triângulo ético e um chamado a amar

Ao refletir sobre o que Deus pede das pessoas que criou à sua imagem, surge uma palavra à qual não prestei atenção como uma ideia teológica séria até ter vinte anos de experiência de ensino. Trata-se da palavra mordomia.

A salvação não se trata, portanto, de ganhar um lugar no céu, mas recuperar um relacionamento com uma pessoa e aprender a viver da maneira que a agrada.

O mandato da criação em Gênesis 1.26-28 é um chamado para dominar sobre a terra. Deus diz a Adão e Eva em Gênesis 1.28: “Sejam férteis e multipliquem-se! Encham e subjuguem a terra!”. O chamado é para administrarmos bem o ambiente onde Deus nos colocou, o que deve ser feito em equipe – homem e mulher são ambos feitos à imagem de Deus – e envolve muitas raças, conforme o decorrer da história da Palavra. Todo ser humano deve contribuir para essa tarefa de administrar bem a terra como parte de seu chamado de vida. Nesse mandato, somos chamados para refletir a imagem de Deus conforme servimos juntos. Em outras palavras, é um chamado central para toda pessoa de qualquer era.

Juntamente com isso está um chamado ético essencial para administrar cuidadosamente nosso relacionamento com Deus e com os outros, o que é visto claramente nos Dez Mandamentos, que consistem em duas tábuas: uma tratando de como me relaciono com Deus, a outra tratando de como posso errar ao maltratar os outros. O que Jesus chama de maior mandamento também tem essa estrutura dupla: “Ame o Senhor, o seu Deus, de todo o seu coração, de toda a sua alma, de todo o seu entendimento e de todas as suas forças… Ame o seu próximo como a si mesmo” (Marcos 12.30-31a).

Esse elemento de administração forma parte da fundamentação ética da Palavra. Ele nos coloca em um triângulo ético entre mim, Deus e os outros. Essa ideia é reforçada quando a salvação é anunciada por João Batista. Em Lucas 1.16-17, a missão de João está definida. A passagem diz: “Fará retornar muitos dentre o povo de Israel ao Senhor, o seu Deus. E irá adiante do Senhor, no espírito e no poder de Elias, para fazer voltar o coração dos pais a seus filhos e os desobedientes à sabedoria dos justos, para deixar um povo preparado para o Senhor”.

Esse versículo levanta a questão: qual é a aparência de um povo preparado para a salvação? A resposta é – eles estão reconciliados com Deus. Essa reconciliação com Deus leva a uma reconciliação com os outros nas diferentes áreas da vida. A preparação para a salvação tem suas raízes em relacionamentos.

Essa ideia de um povo “preparado para a salvação” é confirmada em outro texto, quando a multidão reage ao chamado de João Batista ao arrependimento. Em Lucas 3.8-14, João os chama a “d[ar] frutos que mostrem o arrependimento”, pois a chegada do Senhor estava próxima. O verbo grego para o termo “dar” é poieō. A reação da multidão vem em três partes.

Primeiro, a multidão pergunta: “O que devemos fazer então?”. O verbo para o termo “fazer” também é poieō. Eles estão perguntando de forma direta como aplicar a exortação dada por João. A resposta de João é: “Quem tem duas túnicas dê uma a quem não tem nenhuma; e quem tem comida faça o mesmo”. O interessante nessa resposta é que, normalmente, quando pensamos em arrependimento, pensamos na ligação que essa ideia tem com Deus. No entanto, João traduziu esse arrependimento verdadeiro como a maneira como tratamos os outros. Deus não está diretamente presente nessa afirmação, mas o triângulo ético fica claramente visível, assim como em Lucas 1.16-17.

A seguir, um grupo de cobradores de impostos pergunta: “Mestre, o que devemos fazer?”. Mais uma vez, o verbo para “fazer” é poieō. A resposta é: “Não cobrem nada além do que foi estipulado”. Deus tampouco está presente de maneira explícita nessa resposta, mas, mais uma vez, a preocupação está traduzida como a forma como trato os outros em minha carreira, nas questões do dia a dia.

Uma terceira pergunta é feita por alguns soldados: “E nós, o que devemos fazer?”. Mais uma vez, o verbo usado é poieō. A resposta é: “Não pratiquem extorsão nem acusem ninguém falsamente; contentem-se com o seu salário”. Embora Deus não esteja diretamente presente nessa resposta, o ponto é a forma como os outros são tratados em questões políticas e sociais.

O evangelho de Lucas está descrevendo como Deus e seu mensageiro estão preparando o povo para a chegada da salvação, o que envolve fazê-los refletir sobre como devem alinhar-se corretamente em seus relacionamentos com Deus e com os outros. Voltar-se para Deus é voltar a relacionar-se bem com os outros. Os exemplos citados são pais se voltando para seus filhos e os desobedientes se voltando para a sabedoria dos justos. É assim que se parece um povo preparado para a salvação de Deus.

Quando a Grande Comissão nos chama a fazer discípulos, ela está nos pedindo para cultivar aprendizes dos caminhos de Deus. Um discípulo é um aprendiz. Certamente uma das coisas a aprender é a guardar o maior mandamento.

Quando a Grande Comissão nos chama a fazer discípulos, ela está nos pedindo para cultivar aprendizes dos caminhos de Deus.

Pode-se dizer que a salvação reconecta o mandato da criação à Grande Comissão. Além disso, porque recebemos o Espírito de Deus habitando em nós quando respondemos à mensagem da comissão, podemos refletir o maior mandamento. Quando honramos o maior mandamento, honramos a Deus e o imitamos em nossa forma de viver.

A ideia de que a salvação nos chama a ser como Cristo significa algo semelhante. No cerne de como nos envolvemos de maneira cultural e inteligente está como refletimos a imagem de Deus, honrando-o. O foco da salvação é mais do que a cruz. É também uma nova vida reconectada com Deus, reassumindo a mordomia à qual ele chamou todas as pessoas. É a esse lugar que o evangelho nos conduz.

Para que é a salvação?

Talvez o texto mais famoso sobre a salvação nas cartas de Paulo seja Efésios 2.8-9. Muitos cristãos sabem citá-lo de cor: “Pois vocês são salvos pela graça, por meio da fé, e isto não vem de vocês, é dom de Deus; não por obras, para que ninguém se glorie”.

Nós não conquistamos a salvação com nossas obras. A salvação é um presente da graça, e ela tem um propósito. Infelizmente, muitas vezes paramos neste ponto e não continuamos a ler a explicação desses versículos. A explicação começa com a palavra “porque” em Efésios 2.10. Veja o versículo completo: “Porque somos criação de Deus realizada em Cristo Jesus para fazermos boas obras, as quais Deus preparou antes para nós as praticarmos”. Esse é o porquê de termos sido salvos. As boas obras não nos salvam; elas são o que agora fomos capacitados para fazer como resultado da nossa salvação.

Vamos fazer a pergunta: “Por que Deus perdoa nossos pecados?” e pensar como um judeu da Antiguidade por um minuto. Há uma lógica clara no que Paulo está dizendo. No Antigo Testamento, uma pessoa impura não poderia entrar no templo para adorar a Deus. Então ele ou ela faria um sacrifício ou uma cerimônia para se purificar, e, através disso, a pessoa estaria então livre para entrar no templo e adorar. A imagem da salvação é semelhante. Estamos impuros perante Deus por causa do pecado. Uma vez que o pecado tenha sido perdoado, somos purificados, como representado através do batismo. Agora que nos tornamos vasos limpos, o Espírito Santo pode habitar em nós e nos capacitar para andarmos com Deus.

O perdão dos pecados na salvação abre caminho para que o Espírito de Deus habite em nós e nos dê vida. Com essa nova vida vem uma capacitação para fazer as obras às quais Deus nos chamou quando nos criou. É para isso que serve a salvação, e Efésios 2.10 diz exatamente isso, assim como o enredo teológico de Romanos 1–8. Não é por acaso que o versículo central de Romanos (1.16) diga: “Não me envergonho do evangelho, porque é o poder de Deus para a salvação de todo aquele que crê: primeiro do judeu, depois do grego”.

O perdão dos pecados na salvação abre caminho para que o Espírito de Deus habite em nós e nos dê vida.

Paulo era entusiasmado com o evangelho porque ele fala da capacitação de Deus, um poder que nos permite andar por caminhos que agradam a Deus, ao cuidarmos juntos de sua criação e servirmos àqueles que ele criou. O que éramos incapazes de fazer em Romanos 1–3, somos capazes de fazer ao chegar em Romanos 6–8, graças à justificação de Cristo, que leva à santificação. Romanos 6.4 coloca isso da seguinte forma: “Portanto, fomos sepultados com ele na morte por meio do batismo, a fim de que, assim como Cristo foi ressuscitado dos mortos mediante a glória do Pai, também nós vivamos uma vida nova”.

Por causa do perdão, não estamos mais presos ao pecado. Tendo sido perdoados, podemos viver uma nova vida, porque o Espírito de Deus está agora operando em nós. Nos tornamos um vaso limpo.

Um versículo que consideramos anteriormente – 2Coríntios 5.17 – diz que se alguém está em Cristo, ele ou ela é uma nova criação. Em João 3, Jesus se refere a isso como “nascer de novo” ou “nascer… do Espírito”. A salvação nos leva de volta ao início e ao mandato da criação. Ela também nos leva para o futuro, com uma nova capacidade de agradar a Deus através do nosso envolvimento com as pessoas ao nosso redor.

Efésios 2 faz uma última coisa que nos leva à esfera pública. Os versículos 11-22 enfatizam qual é a primeira boa obra: a reconciliação de judeus e gentios. A primeira boa obra da salvação coletiva é formar a igreja, uma comunidade diversificada composta por aqueles que compartilham desse perdão. Em sua essência, a igreja é um exemplo de reconciliação. Essa reconciliação é entre pessoas de contextos e origens diferentes. O corpo de Cristo é uma imagem da criação sendo restaurada. Em seu próprio design, a igreja testemunha dessa obra da reconciliação coletiva.

O propósito da salvação e o imperativo do amor e do envolvimento

A história da salvação em Efésios 2 não termina com a salvação pessoal, privada. A igreja está em uma missão pela reconciliação. A salvação traz a realidade e a esperança da reconciliação entre aqueles que costumavam ser inimigos. Efésios 2.11-22 explica como os gentios, que não conheciam a Deus e estavam distantes, são agora parte do povo e do templo de Deus, santificados pelo que Cristo fez. Os judeus também foram trazidos para perto de Deus através de Cristo. Ambos, juntos, agora têm acesso a Deus.

O corpo de Cristo é uma imagem da criação sendo restaurada. Em seu próprio design, a igreja testemunha dessa obra da reconciliação coletiva.

Os versículos 17-18 colocam isso desta forma: “Ele [Jesus] veio e anunciou paz a vocês que estavam longe e paz aos que estavam perto, pois por meio dele tanto nós como vocês temos acesso ao Pai, por um só Espírito”. Na igreja, devemos mostrar como Deus restaurou as pessoas. Ao fazer isso, mostramos por que as pessoas foram criadas originalmente: para administrar bem o mundo, tendo um bom relacionamento umas com as outras. Apesar das diferenças étnicas e sociais prévias entre esses grupos, o que Jesus fez torna esse testemunho possível.

Isto, em parte, é o propósito da salvação: unir-nos no Espírito para que possamos trabalhar juntos e então administrar bem nosso mundo e seus relacionamentos. O evangelho é chave nisso tudo, mas esse evangelho precisa nos tornar modelos do que Deus procura, especialmente quanto a como a comunidade de Deus vive como um povo unido perante Deus e no mundo (João 17).

O chamado, como Gálatas 6.10 diz, é para fazermos o bem a todos, especialmente aos da família da fé.

Inteligência Cultural

por Darrell L. Bock

Um guia para engajar-se na atual cultura em transformação de forma a edificar a igreja e a buscar apaixonadamente os perdidos.

Resumo e três palavras-chave sobre salvação e envolvimento

Em nossa pesquisa sobre inteligência cultural, vimos três palavras-chave sobre a salvação.

Em primeiro lugar, 1Pedro 3 nos dá a palavra esperança. A defesa verbal que fazemos e a maneira como vivemos apontam para a esperança que temos em Cristo. Essa esperança está em um relacionamento restaurado com Deus que nunca acaba. Esse relacionamento restaurado honra a Deus, porque está enraizado em sua misericórdia e graça. O perdão dos pecados abre caminho para esse relacionamento restaurado e para nossa nova capacidade de viver de uma maneira diferente.

Em segundo, Lucas 1 e 3, 2Coríntios 5 e Efésios 2 nos mostram que o resultado dessa obra e da mensagem do nosso ministério é a reconciliação, uma reconciliação com Deus e entre as pessoas. Através da Grande Comissão, essa reconciliação nos leva de volta ao mandato da criação, uma ordem que significa que envolvimento e justiça são preocupações esperadas de quem anda com Deus.

Por fim, Romanos 1.16 fala sobre o poder/capacitação para alcançar esse alvo da reconciliação. Esse versículo mostra que uma resposta ao evangelho é uma necessidade para se chegar lá. Ele também mostra que as boas obras que a igreja faz se estendem a todas as esferas. O envolvimento inteligente demonstra o que é possível e serve como modelo do que Deus torna possível. Ele atrai as pessoas a essa incrível esperança da reconciliação em Cristo.

Quando feito de maneira inteligente, nosso engajamento importa, bem como nosso tom. Ambas as coisas refletem um tipo diferente de amor, que reflete a forma como Cristo amou. Também apontam para o tema e a prioridade do evangelho: atrair as pessoas de volta para Deus e umas para as outras. Esse é o nosso chamado ao envolvimento com pessoas em um mundo turbulento.

Nosso chamado às boas obras envolve reconciliação. Ele envolve o maior mandamento de amar a Deus completamente, e ao nosso próximo também. Ninguém fica de fora. Esse amor precisa se estender inclusive aos nossos inimigos. O envolvimento com mansidão e gentileza precisa acontecer o tempo todo.

A boa obra que fazemos é uma obra diferente – ela não é igual ao envolvimento do mundo. Essa diferença é testemunha do poder e da credibilidade do evangelho.

Junte tudo isso e você tem uma inteligência cultural que testemunha da presença de Deus em nossas vidas e da obra do evangelho. Através dessa capacitação, nós podemos ser as pessoas que Deus nos chama a ser em qualquer lugar em que ele nos colocar. Um chamado de salvação precisa ser centrado nessa obra reconciliadora de amor, porque, em parte, esse é o próprio propósito da salvação.

Este artigo foi adaptado de Inteligência Cultural, por Darrell L. Bock.

  • Darrell L. Bock (Ph.D., University of Aberdeen) é o diretor executivo de Engajamento Cultural e professor de pesquisa sênior em Estudos do Novo Testamento do Dallas Theological Seminary. Autor de mais de 40 livros, serviu como presidente da Evangelical Theological Society entre 2000 e 2001. Casado com Sally, é pai de três filhos.